Vaga-lume - 27 de agosto de 2008
Em 1997, Pedro Mariano lançava seu primeiro disco e já era considerado uma das grandes apostas do que muitas pessoas chamavam de a "nova MPB". Porém, mais do que conviver com a simples pressão de ser um novo artista no mercado, ele ainda tinha que lidar com outra questão: seus pais.
Pedro, muita coisa aconteceu recentemente em sua carreira. Em 2005, foram 10 anos de carreira marcados com o lançamento de um show em CD e DVD, além de mudança de gravadora (Universal Music). Ano passado, você também lançou o primeiro cd de inéditas pela Universal. O Pedro de hoje é muito diferente do Pedro de 1995, no início de carreira?
Tem muita diferença, pra começar a experiência te traz uma série de coisas que pra minha profissão são muito importantes. A experiência te quebra a ansiedade. Então quando você vai lançar um primeiro disco, você tá ansioso por "N" coisas. Você tá ansioso na hora de cantar, você é ansioso na hora de escolher música, você é ansioso na hora de contratar um músico, você é ansioso na hora mandar ele embora, você é ansioso na hora de assinar um contrato, você é ansioso na hora de querer os resultados. Tem muita coisa e hoje não. Hoje eu não tenho pressa por nada.
Hoje, a forma como eu seleciono música talvez seja muito parecida, mas tenho a capacidade de enxergar o potencial daquela música já a longo prazo. Eu percebo isso muito claramente quando ponho o primeiro disco que eu gravei. Ouço e começo: "Hum, não, não isso não. Poderia ser melhor."
Eu tenho vontade, no futuro, de pegar o primeiro disco e remasterizá-lo e remixá-lo. Não porque eu acho que tenha coisas erradas, mas porque ele merece isso. Ele merece mais calma. Não teve esse calma. Ficamos 2 meses em estúdio e foi tudo feito de forma atropelada. Hoje eu faria esse disco em 28 dias. É o disco que tem o mesmo esmero que aquele que levou dois meses para ser feito. O poder de síntese é outro.
Então, eu acho que essa é a grande mudança. Hoje eu gasto menos energia pra chegar no mesmo resultado. Para começar, meu relacionamento com a mídia. No primeiro disco, eu já ia pra entrevista, assim: "Quem vai ser o primeiro a tomar uma porrada?". Hoje, tá tudo bem. Eu não obrigo ninguém a gostar de mim. E se não gosta de mim, poupe seu tempo, não escreva a meu respeito, melhor pra todo mundo. Então esse relacionamento evoluiu muito. Hoje em dia, tiro tudo de letra. Abro o jornal e: Xi, tá falando mal de mim. De novo. Mas, tá tudo certo.
Você é um músico da MPB, mas que sempre mostrou muitas influências da black music, em particular. Atualmente, qual estilo musical/bandas/cantore(a)s tem mais influenciado seu trabalho?
Eu venho caminhando numa linha tênue. Tem hora, que eu quero esquecer todas as influências e cair de cabeça só na MPB. Fazer um disco super-ultra brasileiro. E tem hora, bicho, que eu quero preciso fazer um disco, que é uma coisa que eu sei fazer.
Tem horas que eu vou me dividir. Então, eu vou mexer em um trabalho e penso : "Tá pop demais". Aí eu tenho que misturar tudo de novo. “Pera aí, ficou MPB demais, tem a moçada que gosta das músicas pra dançar”. Aí, eu volto. Às vezes, eu fico me policiando nesse sentido e eu encaro isso, um pouco, como o negócio de tocar as músicas de minha mãe. Eu fiquei muito tempo cantando as músicas dela, mas eram músicas... ou era um lado b ou como homenagem e assim foi indo. Até que chegou o DVD ao vivo. Aí eu falei: “Eu estou aqui dez anos depois por causa do show que eu fiz pra ela. Então eu vou fazer de novo uma homenagem pra ela”.
Muito embasado numa conversa que tive com o Lulu Santos, que chegou pra mim e perguntou por que eu não gravava um disco só com músicas dela. Sabendo que o Lulu é um cara extremamente inteligente, mas ao mesmo tempo extremamente provocador, sabia que ele estava querendo chegar a algum lugar com aquilo. E eu falei: "Tá bom Lulu, qual é a pegadinha?" Por que você quer que eu grave um disco só com músicas dela?”. E ele falou: "Aí, param de te encher o saco, né?". E eu falei: "É, tem razão".
Aproveitando o gancho sobre seus pais. Certa vez, você reclamou em uma entrevista que as pessoas usavam os nomes deles como um complemento curricular para você. Isso continua acontecendo ou já é coisa do passado?
Não, automaticamente depois que eu lancei o DVD, parou. Parou com a mídia, parou com o público, com tudo. Eu acho que foi uma pedra fundamental. Eu corri um risco muito grande, sabia que tava correndo esse risco, mas valeu a pena por causa disso. Não que me incomodasse ao ponto de tirar meu sono. Mas é que, invariavelmente, em algum determinado momento, o assunto só ficava nisso.
Sua carreira é marcada por muitas parcerias. Existe alguém com quem você tenha uma química especial no trabalho?
Na verdade, todo mundo com quem eu divido uma música, um palco, só está ali porque tem uma química especial. O palco pra mim é um local sagrado. O estúdio, onde estou gravando, é um local sagrado. Não entra mala. Eu não me estresso nesse ambiente. Talvez por isso, muita gente me pergunta: "Ah, por que você não canta com "A" ou "B"?" Por que nunca aconteceu com "X" ou "Y"?" É absolutamente por falta de afinidade ou porque não rolou uma oportunidade.
Com todo mundo tem uma química especial. Mas acho que assim, as duas pessoas com quem eu divido dois papéis completamente distintos, que realmente fazem a diferença pra mim, um é o Jair (Jair Oliveira), como compositor. Cara, é um negócio ridículo. Parece até... vai ter um dia que ele vai fazer uma música, eu vou cantar e achar ruim! Um dia isso vai acontecer. E não acontece. Eu posso ouvir uma música dele e dizer: "Putz, eu não gravaria isso". Aí, fico eu no chuveiro cantando a música. Logo, já tô eu ligando pra ele: "Cê vai gravar? É que eu tava pensando aqui...".
E na outra ponta, meu parceiro, produtor de todos os meus discos, com exceção do primeiro de 96, que foi o João (Marcelo Bôscoli, irmão de Pedro). Dali pra frente eu só trabalhei com o Otávio de Moraes. Apesar de eu produzir todos os meus discos, o artista precisa de um porto seguro. Na hora do pânico, pra onde que eu olho? Eu preciso sempre ter essa pessoa ao meu lado e precisa ser um produtor e um arranjador. E o Otávio, é esse cara. Aonde eu estou, em qualquer momento da minha vida, pinta uma dúvida, ligo pra ele: "O que você acha?". É sempre a pessoa quem eu procuro. Apesar de eu ter o telefone da casa de meu pai, ele não é a primeira pessoa que eu ligo.
Além da turnê de shows, existem projetos para o futuro?
Não, porque eu sou um cara que vivo um momento de cada vez, uma etapa de cada vez. Tenho outros projetos que comecei a conversar, mas não andei. Mas, antes de dezembro não vai acontecer nada.
O que mais lhe agrada e desagrada atualmente na música brasileira?
O que me agrada atualmente é essa possibilidade de tocar pra quem tá afim de te ouvir, de um jeito ou de outro, sem depender dos grandes veículos. E o que não me agrada é uma pessoa hoje abrir a boca na Vila Madalena, e já virou estrela, virou o maior cantor ou cantora do país, em 48 horas. Não deram nem tempo pra pessoa se achar. Gera-se uma pressão muito grande sobre o artista e ao mesmo tempo não tem como uma pessoa não ficar se achando. Aí começa a posar de estrela, de uma hora pra outra.
Eu não gosto disso pra ninguém. Não gostei quando me colocaram como "a nova promessa". Primeiro que eu não prometi nada pra ninguém, eu tô aqui fazendo o meu trabalho. As coisas tem que acontecer naturalmente. A impressão que dá é que o Brasil precisa de um novo Senna, de um novo Pelé, de uma nova Elis Regina. É só deixar a coisa fluir de forma natural.